quarta-feira, 12 de maio de 2010

Décimas

Se amor vive além da morte,
Eterno o meu há-de ser:
Se amor dura só na vida
Hei de amar-te até morrer.

GLOSA

Que um peito, Anália, sensível,
Desses teus olhos ferido
Nao te caia aos pés rendido,
Me parece um impossível.
Antes só tenho por crível
Que todo a ti se transporte,
E te reste amor tão forte,
Em teu serviço jocundo,
Que te ame além do mundo
Se amor vive além da morte.

Por essa força atrativa
Que te pôs a natureza,
Minha alma antes ilesa
Já de si se vê cativa.
De amor numa chama viva
O peito sinto-me arder;
E se posso hoje prever
Os sucessos do futuro,
Entre os fogos de amor puro
Eterno o meu há de ser.

Mais forte que o gordiano,
É o nó que a ti me prende;
Fica certa que não fende
Da morte o ferro tirano;
Porque trazer-te-ei ufano
Num fundo d'alma esculpida,
Ou o nada reduzida
Deve ser a minha essência;
Que nego a sobrevivência
Se amor dura só na vida.

Em ambos suposições
Não és de mim separada;
Que me estás amalgamada
Da mente nas sensações;
E pois modificações
Só por si não pode ser,
Hás de eterna em mim vier,
Se eu tenho uma alma imortal;
Ou se ela é material,
Hei de amar-te até morrer.

Frei Caneca
(1779-1825)

Nenhum comentário:

Postar um comentário